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DESPORTO ALMADA BLOG

INFORMAÇÃO DESPORTIVA - CRÓNICAS - REPORTAGENS - ENTREVISTAS E RESULTADOS . PARA O - EMAIL JOAQUIM.REPORTER@GMAIL.COM

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Capa do livro José Freitas.PNG

Em 2009, foi publicado o livro, José Freitas "Golfinho" de Gibraltar (Memórias),um livro que dá a conhecer um vasto conjunto de depoimentos e que relata a  paixão do autor pela modalidade.

"Este livro de memórias,publicação exigida insistentemente por muitos dos meus amigos e camaradas,só foi possivel graças à excelente colaboração e apoio de um grupo de pessoas,entre as quais a minha mulher, filhos, noras,genro e netos, que prontificaram-se em ajudar-me a passar os textos para o computador e a digitalizar as imagens e outros documentos, alguns já com mais de cinquenta anos.

(...) É um livro que poderá ser lido por jovens de hoje e por aqueles que foram jovens nos anos 50,60 e 70,e como tal, farei o possível para que as bibliotecas públicas e as coletividades do concelho de Almada,o tenham disponível para consulta dos seus leitores(...).José Freitas

 

Aqui deixamos o Prefácio de autoria de:

Homero Serpa

Sou  amigo do José de Freitas há não sei quantos anos.Muitos.Fomos companheiros na equipa de natação do "Belenenses" e, antes disso, adversários nas travessias e na Doca do "Adicense", a piscina das gentes de Alfama, do povo do mar. Não nos separa grande diferença de idades, separa-nos, porém, um  certo tempo, o suficiente para o mais velho compreender a idiossincrasia do mais novo, que no José Freitas se manifestou cedo. Uns anitos depois da nossa diária  convivência integrada num grupo de nadadores que pela modéstia, pioneirismo e  integral «fair play», escreveram páginas, hoje mal lembradas, do desporto português, descruzámos os caminhos, eu entrei, ainda displicente e aprendiz, no jornalismo desportivo, que havia de ser o meu futuro profissional, e o Zé, mantendo a qualidade de operário, que nunca renegou e antes enalteceu, dedicou-se à natação. Como nadador com êxitos assinaláveis na longa distância, como monitor, ainda no tanque do Jardim Colonial, o famoso «caldo verde»  ou, usando imagem terrífica, tanque dos crocodilos.

"As memórias do José Freitas são um contributo maravilhoso para a história da natação portuguesa, que também foi escrita por homens modestos como ele".

A natação, nesses tempos, era matéria quase esotérica na nossa querida periferia, dominada pelo obscurantismo predicado por caciques e membros do clero e aceite como doutrina essencial à Nação. Era a natação e outras actividades que envolviam o colectivismo, já defendido pelos homens de boa vontade, nos idos de trinta e três do século passado durante o I Congresso dos clubes desportivos que as entidades oficiais não apoiavam. Ingénuas tinham sido as personalidades e entidades oficiais que desfilaram, garridamente, do Marquês de Pombal ao Terreiro do Paço, em Dezembro de 1933, porque  o governo da ditadura pensava aplicar aos portugueses o sistema nazi e facista. Por de certo modo, homens e mulheres terem procurado dirigir e fazer desporto para além do espartilho imposto pelas instituições governamentais, é que, apesar desses condicionalismos, o associativismo não se perdeu por completo e ainda foi possivel, por exemplo,ajudar as crianças pobres a praticar a natação, numa semiclandestinidade. José Freitas fez parte desse altruísmo, o "  Adicense",o "Belenenses" e a SFUAP foram sedes de desporto popular à revelia das intenções do regime.

 

E meninos e meninas que nunca poderiam ter aprendido a nadar e a praticar natação, aparecem lá no fundo dos anos como arquétipo do que vale o poder dos cidadãos, desde que interessados em promover o desporto como um direito do Povo. E quando existe uma força firme, determinada, heróica,até as ameaças das ditaduras caem  na vacuidade que é afinal da sua própria indole.

 

Encontrei no livro de José Freitas situação nitidizadas e que não me surpreendem: orgulho pelo seu trabalho ao serviço da SFUAP; a amizade paternal pelos nadadores e nadadoras que formou  e acompanhou nas competições; a admiração pela sua familia à qual passou o testemunho, ao que parece com êxitos confirmados.

 

Esta passagem detestemunho, só por si, representa acentuada diferença nas épocas e no grau académico entre o chefe do clã e os herdeiros do seu talento - passou-se do pioneirismo, mesmo que servido, algumas vezes,  por um deis-cência atenta e trabalhosa, para a aplicação de métodos cientificos aprendidos na Escola,uma escola livre e não uma escola elitista, José Freitas conta a sua  vida numa escrita humilde e sincera.De facto, aborda a natação ou o percurso profissional, mostra-se a si mesmo sem adornos nem complexos. Retrato perfeito. Que também nos dá a ideia da força de vontade e da paixão que um homem de bem pode acalentar pelas causas que julga dignas da sua vontade. Realço, igualmente, a coerência do Autor nas abordagens politicas- sociais, especialmente quando defende o papel colectivista da SFUAP como projecto destinado a servir a população da Freguesia em coerência com o estatudo social do próprio município.

 

Em conclusão, as memórias do José Freitas são um contributo maravilhoso para a história da natação portuguesa, que também foi escrita por homens modestos como ele.

Homero Serpa